Para começar, nunca mais vou comer guacamole
Já era manhã, acordei bem cedo pois estava ansioso pela minha viajem à Argentina. Na noite passada quase não consegui fechar os olhos me remoendo de tanta angústia, e ali estava eu conversando com a passagem. Eu e ela, ela e eu. E então, o grande dia chega; pega mala, pega passaporte, cadê a identidade? Despede do cachorro, despede da família e por fim, depois de tanta confusão, chego ao aeroporto, vou para a porta de embarque e finalmente estou dentro do avião (ai que alegria!). Passadas algumas horinhas chego a tão famosa Argentina! Para mim, a Disney da América do Sul. E agora, o que fazer? Tantas opções e possibilidades, mas como sempre, escuto meu estômago e paro em um “café” próximo aquela rua estranha e vazia.
Chego, escolho meu lugar, pego o cardápio e lá está, o que vou pedir? Talvez uma hamburguesa, ou um pescado, papas? Não! Ali não tinha nada disso nem daquilo. O cardápio tinha somente uma opção: nachos com guacamole. Que diabos seria isso? Logo eu descobriria. Então vamos lá: “Un nachos con guacamole y un refresco por favor” disse, para aquele garçom bigodudo e mal humorado. Passaram-se 10 minutos e o pedido chega, observo bem o prato com aquele olhar de curiosidade, mas tudo bem, o que poderia acontecer comigo, não é mesmo? Lembrando que uma pessoa que passa por um voo de 6 horas a base de barrinha de cereal não escolhe muito bem o que comer, só come. E não foi diferente comigo, comia como se não houvesse amanhã (e realmente não houve). No fim, não tinha sobrado nada na bandeja. Peço a conta, me levanto, supostamente satisfeito e feliz e vou de barriguinha cheia para o hotel.
Depois de acomodado, sinto meu corpo estranho, principalmente o estômago. O final desse trecho da história todo mundo já sabe, 6 dias de viajem, 2 dentro do banheiro do hotel, pois havia pegado uma infecção alimentar (até hoje odeio guacamole). Pois bem, depois de tomar alguns remédios que tinha levado dentro de uma mala de mão vermelha ridícula, me estabilizo e prossigo a viagem.
Após zoológicos, museus, parques e guacamole, chega a hora de ir embora, tinha gastado todo meu dinheiro em margaritas, pastelitos e alfajores, então, decido ir ao aeroporto de ônibus, afinal, o transporte público de lá era exemplar e “não tinha erros”. Fui informado de como chegar ao aeroporto dessa forma: “pega o que vai naquela direção” “ tem que ser o R2” “aí você desce em tal lugar” e assim foi, entrei no ônibus e só pra confirmar, perguntei ao motorista se poderia descer no aeroporto. E ele disse que... atenção a resposta: sim! Sentadinho e molambento de tanto segurar a bendita mala vermelha de mão, comecei a achar que estava demorando demais pra chegar, fui falar com o motorista novamente, que só balançou a cabeça como um suposto “sim”, só que não.
De repente algumas senhoras eufóricas me avisaram que aquele ônibus na verdade não passava no aeroporto e que seria melhor eu descer ali, em uma espécie de além centro de Buenos Aires, aquele lugar que nenhum turista vai. Confuso, desci arrastando as malas sem saber pra onde ir, até que uma mulher que também tinha descido do ônibus começou a explicar onde eu poderia pegar um táxi. Um táxi este que eu não quis pegar na porta do hotel pra ficar andando no calor de 31º graus. Não entendi nada da explicação dela, mas juro que sou avançado no espanhol! Então, para minha surpresa, ela praticamente pegou na minha mão e me levou a um ponto próximo. E quando encontramos um táxi, ela começou a negociar com o taxista a minha corrida, negociou a ponto de brigar! E eu nem achava que precisasse de tanto assim, afinal, era eu que iria entrar naquele carro em um país desconhecido. Mas ela brigou, brigou e brigou e no fim, tirou um papelzinho do bolso, anotou o nome dela, e-mail, telefone e me entregou.
Eu, que não estou acostumado com a gentileza dos outros, entrei no táxi pensando: nossa, mal conversei e ela já quer que eu a adicione no Facebook... mas ai percebi que na verdade, era um bilhete de: “se você for assaltado, sequestrado ou o taxista não te levar ao aeroporto você me liga” Mas cheguei ao aeroporto sã e salvo, fiquei pensando nesta mulher com o gesto mais gentil da viagem inteira, o gesto de ficar andando comigo no centrão de Buenos Aires, de se atrasar para o trabalho por mim, de se preocupar com o valor com que eu pagaria de táxi e ainda, passar seu contato para um estrangeiro desconhecido com uma mala de mão horrível vermelha na mão. E eu nem adicionei ela no face...




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